Um Banquete ao Amor: um diálogo entre Platão e Thelema – I

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Parte I: Fedro e a Virtude Heróica

Amor é a lei, amor sob vontade. Quando o Livro da Lei conclama estas palavras, e nós Thelemitas as repetimos, estamos nos inserindo dentro de uma longa tradição que enxerga um vínculo indissociável entre a experiência de mundo erótica e a consecução espiritual. Para tanto, somos levados à perceber determinadas semelhanças entre a mensagem do Liber AL, aquilo que experienciamos em nossas vidas diárias, e outras tradições espirituais ao redor do globo.

Neste sentido, nos sobressalta aos olhos a experiência filosófica e espiritual do platonismo, um sistema filosófico claramente erótico, com diversos níveis de refinamento da experiência do Eros, o Deus do Amor.

Nestes artigos realizaremos uma aproximação – um diálogo – entre a noção de Eros (Amor) apresentada no Banquete de Platão com a filosofia de Thelema. Procuraremos não somente descrever semelhanças e/ou diferenças, mas ter um engajamento criativo com ambas as propostas, apontando pontos de experimentação e reflexão do mistério erótico-platônico, e como podemos aplicá-lo na nossa jornada thelêmica.

O que é um diálogo platônico?

Infelizmente não temos espaço o suficiente para descrever as inúmeras nuances de um diálogo platônico. Basta ter em mente, no momento, o que já apontamos no artigo A Luz é só Uma: Plotino e a Verdadeira Vontade, sobre filosofia antiga ser entendida como um modo de vida, uma atitude reflexiva que implica em uma práxis, um engajamento contemplativo no mundo.

Neste sentido, a filosofia antiga não busca uma explicação teórica da natureza da realidade, meramente especulativa, um corpo de conceitos que dialogue somente com as faculdades racionais do ser humano. Ela busca uma transfiguração completa da personalidade – o filósofo busca ser tocado filosoficamente por todas as partes de sua alma. No caso de Platão, em que a filosofia é feita principalmente através da oralidade, um diálogo platônico tem por fim conduzir todas as esferas do nosso ser (racional, emocional/ardente, desejante) em um relacionamento íntimo com o objeto tratado.

Por isso, em Platão encontramos uma filosofia dramática, teatral, com personagens e cenários, que visam erotizar não somente a razão, mas todas as partes do indivíduo. A função de um texto como o Banquete é, portanto, tornar o indivíduo plenificado e preenchido, em todo o seu ser, com o tema a ser tratado – isto é, com a experiência do Deus Eros e do mistério do Amor. A função do Banquete é ser uma atividade contemplativa, no qual os vários pontos do texto permitem ao leitor uma contemplação integral da divindade. É, em termos theurgicos, um rito de invocação: pois ambiciona invocar na alma do leitor a experiência da divindade. O Banquete, portanto, é um texto com um tom especial, que deve ser lido por cada leitor em sua interioridade para uma experiência integral da divindade nele contida.

Banquete Erótico

O Banquete se passa durante um festival do Deus Dioniso, no qual Agathon comemora, junto de seus amigos, em um Banquete, ter sido premiado como o melhor trágico do ano. Em sua residência, permeado por uma ambiência erótica e dionisíaca, reúnem-se vários personagens, entre eles um jovem belíssimo (Fedro), um político (Pausânias), um comediógrafo (Aristófanes), um médico (Eurixímaco), um tragediógrafo (Agathon) e um filósofo (Sócrates). Cada um deles irá tecer um elogio ao amor de acordo com sua visão de mundo, enaltecendo os inúmeros aspectos do Eros.

O diálogo, no entanto, serve também como uma escada contemplativa, que se inicia em Fedro e, através do discurso de cada personagem vai atingindo um nível mais elevado de compreensão do Eros, terminando com o discurso de Sócrates que é, na verdade, o discurso de Diotima, uma sacerdotisa dos mistérios gregos iniciada na arte do amor. Cada discurso é, portanto, um degrau dentro da contemplação; o cume contemplativo, que se dá em Sócrates, realiza a experiência máxima do Amor. Ele aniquila e reintegra os demais na sua apreciação do Deus. Sua escada é uma alusão aos mistérios gregos, capazes de prover uma efetiva iniciação erótica.

O que está sendo contemplado pelos presentes é o Eros, o Deus do Amor. Amor este que tem conotações profundamente sexuais. Eros é o Deus do Desejo, do Sexo, do Tesão, da Libido, da Vontade. Durante o livro, várias faces do Amor são apresentadas. O primeiro a discursar é Fedro, amante de Agatão e apreciador do amor enquanto pulsão de vida homérica e heróica.

Discurso de Fedro: os Deuses também transam

O primeiro discurso que emerge das profundezas do Banquete é o de Fedro que, inspirado pelos antigos poetas gregos, conclama aos presentes as primícias de Eros perante todos os outros deuses. Eros é, como bem canta o poeta Hesíodo, um deus primordial, antecedendo todos os cosmos (isto é, ordenamentos) divinos conhecidos pelos gregos: o cosmos de Urano-Gaia, o cosmos de Cronos, o cosmos de Zeus.

Não são só os homens que são afetados pelo Eros (e nisto está presente uma grande sabedoria do pensamento grego): o mundo divino é, também, um mundo erótico. Todos os deuses participam do Eros, desejando uns aos outros, e é a hierogamia (isto é, cópula sagrada – hieros gamia) dos deuses a força matriz responsável pela totalidade da realidade – seja ela divina, humana ou animal. No primeiro ordenamento (cosmos) da teogonia grega, isto é, no cosmos de Urano e Gaia, Eros já estava presente, impulsionando no Céu (Urano) o desejo ardente pela Terra (Gaia), um Eros tão insaciável que não permitia a existência de mais nada – pois como Urano nunca se afastava de sua consorte, não havia espaço para existência desses filhos, isto é, para uma nova realidade emergir.

Assim também ocorre com seus sucessores (Cronos e Zeus) que, através do Eros, determinam a natureza da realidade que será governada por eles. Ou seja, o cosmos grego é um cosmos erótico; a interdependência entre as partes da totalidade é, em si, de natureza hierogamica, isto é, sexual.

É por este motivo que Hesíodo coloca Eros como um dos quatro Deuses Primordiais, acompanhado do Caos, Gaia e Tártaro, que antecedem a todos os outros seres, sejam eles titãs, deuses, humanos, daimons, heróis, etc. Se o mundo dos deuses funciona a partir de uma lei, esta com certeza é regida pelo Amor (Eros). O existir é uma grande hierogamia, e é nisto que consiste a primícias de Eros sobre todas as outras divindades. Fedro deixa subentendida estas relações quando afirma, logo no começo de seu discurso, que

Grande Deus é o Eros, digno da admiração dos homens e dos deuses, por muitos e vários motivos, entre os quais não é dos menores o de sua gênese, que o coloca no número dos mais antigos deuses. Não teve pai, nem mãe, nem o nome dos que o geraram é representado por nenhum poeta”.

Eros não pode, obviamente, ter pai nem mãe, porque a própria geração produzida pela relação entre o masculino e o feminino é um produto de Eros. Ele é, portanto, anterior a toda geração – o mais primordial, neste sentido, entre todos os deuses.

Eros e a pulsão heroica

A atuação do Eros não se restringe ao mundo da divindade: ela perpassa o mundo dos seres humanos sendo, segundo Fedro, “o maior de todos os bens”. Isto porque o amor é, de todas as forças da vida, àquela que impulsiona de modo mais eficaz os indivíduos à busca da sua própria excelência. O Eros é a força heroica que convoca o ser humano à Andreia, isto é, à coragem existencial diante do mundo, clamando-o a dar a totalidade de seu ser no cálice da vida, a exaurir o seu máximo potencial no existir.

O Amor é, para Fedro, o verdadeiro impulsionar da força e do calor humano, aquilo que torna possível o impossível, que permite aos seres humanos que transcenderam toda a sua gama de potencialidades. É somente por amor que lutamos até a nossa extinção, que excedemos os nossos limites, que podemos esquecer de nós mesmos diante da força produzida pelo ato de amar. Um indivíduo apaixonado, tomado pela combustão erótica, é alguém capaz de atravessar o abismo da impossibilidade em busca da sua máxima excelência. Virtude essa que, para o mundo heroico dos gregos, é a marca de uma vida afirmativa, que não se esconde diante do caos, mas que abraça perigosamente cada segundo de seu existir, exaurindo a si mesmo, alcançando a areté (excelência). É por amor que um guerreiro torna-se excelente na guerra; um médico na arte divina da cura; e um artesão na consecução de seu ofício. Ele convoca cada ser humano a dar o seu máximo em seu existir, exaurindo todas as possibilidades:

“Se pudesse acontecer, por obra de encantamento, que uma cidade ou exército só contivesse em seu seio amantes e amados, seria impossível que tal exército ou cidade não encontrasse neles a máxima garantia de sua prosperidade (…) Nos combates, tais soldados, ainda que em apoucado número, venceriam, por assim dizer, a humanidade inteira”

Discurso de Fedro, p.6

O Amor é a combustão por detrás do ideal, tão presente na Ilíada e na Odisseia, do herói grego, daquele que – diante da finitude da existência – não procura válvulas de escape ou de negação da realidade, mas que aceita o mundo na maneira como ele se apresenta e, tomado pela pulsão de vida, clama por mais vida, pela experiência de intensidade em cada momento. É somente quando amamos algo (ou alguém) que adquirimos a intensidade necessária para aceitar a vida como ela realmente é e, dentro do perigo do existir, vivemos o mundo de modo apaixonado, como se cada segundo fosse o nosso último. Este é o ideal da Grécia Homérica, que enxerga nos heróis gregos homens imperfeitos, repletos de falhas morais, mas que viveram a vida e os conflitos que ela pode oferecer com excelência, sacrificando a si mesmos no instante presente.

Fedro vai ainda mais longe e afirma categoricamente que o Amor é a única força capaz de fazer um indivíduo transcender o seu instinto mais primário – o de sobrevivência. O amante é aquele que está disposto a morrer em nome do Amor. Esta força é tão voraz que a única capaz de fazermos perceber algo para além do eu, uma vida para além da vida – é somente por um ato de Amor que o homem pode cair no beijo da aniquilação, no não mais existir. É somente pelo Amor que ele pode ser conduzido para fora de seu medo e conforto, abraçando a realidade apaixonadamente. Lembremos:

“Beleza e força, riso espontâneo e delicioso langor, força e fogo, são de nós”

AL II: 20

Fedro realiza a homenagem de Aquiles, o ardente, colérico, fogoso e forte herói aqueu que encontrou a morte em campo de batalha, procurando vingar a morte de seu amado Patroclo. Aquiles, de antemão, sabia através de uma profecia que, se lutasse na Guerra de Tróia, iria morrer jovem, mas com honra (areté); se não lutasse, pelo contrário, retornando à Grécia, viveria uma vida plenamente confortável até a sua velhice.

Quando sabe da morte de Patroclo, no entanto, Aquiles abdica da própria vida em nome do Amor, se juntando ao exército grego contra os troianos para vingar Pátroclo, e sendo morto no meio do caminho pela flecha de Paris, o abençoado de Afrodite. É o aniquilar-se em nome do Amor que faz de Aquiles o herói grego mais notório da história: renunciou a tudo aquilo que não amava para se exaurir diante da chama do amor.

“Eu sou a chama que queima em todo coração do homem e no núcleo de toda estrela. Eu sou Vida e o doador da Vida, no entanto, o conhecimento de mim é o conhecimento da morte.”

AL II:6

O dilema confrontado por Aquiles, entre viver uma vida confortável até a velhice, ou extinguir-se por amor realizando o sentido de sua existência, lembra, e muito, aquilo que nós Thelemitas somos chamados a obrar. Quantos de nós não somos constantemente assaltados pelo mesmo dilema: viver uma vida confortável ou realizar nossa Verdadeira Vontade, o sentido do meu existir?

É somente o amor, responde Homero, é que é capaz de tirar um ser humano da sua nulidade para exaltá-lo a realizar a sua Vontade (Thelema). Quantos Pátroclos estamos deixando abandonados em campos de batalha todos os dias que escolhemos não manifestar a nossa Vontade? Ou melhor: qual é o Pátroclo do meu existir, aquilo que arde tão forte em mim que é capaz de me fazer transcender a mim mesmo, ao meu próprio eu, a me aniquilar em nome do Amor?

Escreve, & encontra êxtase na escrita! Trabalha, & sê nossa fundação o trabalhar! Freme com a alegria da vida & morte! Ah! tua morte será amável; quem a vir ficará contente. Tua morte será o selo da promessa de nosso amor de longa era. Vem! ergue teu coração & rejubila! Nós somos um; nós somos nenhum.

AL II: 66

Aquiles é aquele que se aniquila durante o ato de Amor, nos braços de seu amado e que, por isso, ganhou um canto para celebrar o seu feito – o mais influente poema da literatura ocidental. A Ilíada é a história de um homem que decidiu abdicar de sua própria vida em nome do Amor. Que possamos nós, a cada momento, nos aniquilarmos na realização de nossa Verdadeira Vontade. E que, se tivermos dúvidas, lembremos que a história de um ser humano que realiza a sua Verdadeira Vontade é sempre uma história de Amor – passível de ser cantada por milênios em um poema. Se assim não o for, para o Inferno com eles!

Platão, através da boca de Fedro, está exaltando o Eros como a pulsão de vida máxima, a força motriz por trás do ideal heroico. É este conjunto de atitudes heroicas diante da vida que Nietzsche procura recuperar em seu tempo, como remédio para uma sociedade tão adoecida como a Europa do século XIX, e que me parece ser um dos fundamentos mais arrebatadores da Lei de Thelema: o reencontro com a capacidade de se (re)apaixonar pela vida.

Encerro o texto com uma citação do Assim Falou Zaratustra (1885), em que Nietzsche, filólogo amante de Homero, adequa o ideal heroico à sua percepção do Super-homem, aquele capaz de transcender a si mesmo. Que possamos ver o eco de Fedro e do seu Discurso do Amor na obra de um dos mais apaixonantes defensores de uma filosofia dionisíaca, inspirada na força heroica:

“Eu só amo aqueles que sabem viver como que se extinguindo, porque são esses os que atravessam de um para o outro.

Amo os grandes desdenhosos, porque são os grandes adoradores, as setas do desejo ansiosas pela outra margem.

Amo o que ama a sua virtude, porque a virtude é vontade de extinção e uma seta do desejo.

Amo o que não reserva para si uma gota do seu espírito, mas que quer ser inteiramente o espírito da sua virtude, porque assim atravessou a ponte como espírito.

Amo o que faz da sua virtude a sua tendência e o seu destino, pois assim, por sua virtude, quererá viver ainda e deixar de viver.”

Preâmbulo de Zaratustra, IV

“De tudo quanto pode ajudar aos homens que querem viver belamente a vida inteira – vínculos do sangue, dignidade, riquezas – nada no mundo pode, como o Amor, fazer nascer a beleza”.

Discurso de Fedro

Frater Nihil