Salve Babalon! A Deusa de Milhões e de Nenhum

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“Ó Amante de Grande Coração, Senhora Impetuosa, a mais Orgulhosa entre os deuses (…) Preeminente em todas as terras, exaltada entre os grandes príncipes, Senhora Magnífica que reúne os poderes divinos do céu e da terra, Ela dá seus veredictos finais.

Sem Ela, o grande An não toma decisões e Enlil não determina nenhum destino. Quem se opõe à Amante e levanta a cabeça? (…) Sua ira torna as cidades em ruínas e lugares assombrados, e os santuários, terrenos baldios. Sua ira faz as pessoas tremerem, pois Ela desperta confusão e caos contra aqueles que são desobedientes, acelerando a carnificina e incitando o dilúvio devastador, revestido de uma radiância aterradora. 

Inanna se senta sobre leões arriados, despedaça aqueles que não mostram respeito. A Amante, Inanna, a Amante, lutando, cantando. Ela executa a música de seu coração. Ela lava suas armas com sangue das cabeças, em suas primeiras oferendas, ela derrama todo o sangue, na vasta e silenciosa planície

A invocação do Seu nome enche as montanhas (…) Você é a Grande Vaca entre os deuses do céu e da terra, tantos quantos existem. Quando você levanta os olhos, esperam pela Sua Palavra.”

De quem são estas são as palavras? Foram entoadas em forma de hino há muitos milênios atrás, muito antes da Era Comum, dos babilônios e hebreus, inclusive. Eram entoadas até num Paleolítico Superior, quando a filosofia antiga, as tradições de mistério e mesmo as religiões abramânicas sequer estavam se formando. Quando nem as correntes de mistérios como a ofidiana, hermetismo e gnosticismo estavam de pé. Quem é esta Deusa que tanto os mais antigos veneravam e trazia multidões, em meio ao temor, respeito e ao prazer sagrado?  Neste artigo, vamos incorporar a dicotomia desta divindade, ora invocada sob o nome de Ashtoreth, Astart, Asherah, Aset, Inanna, Ishtar e… Babalon.

Por muitos milênios, um sagrado feminino era possivelmente compreendido como universal, entre tantos povos, etnias, línguas e costumes. Mesmo sob alguns aspectos relacionados à guerra, à ira e à violência, a sua natureza demiúrgica e da fertilidade estão sempre presentes e inerentes. Mas como podemos relacionar esta divina manifestação com a suprema divindade thelêmica? É o que veremos!

A Mulher no Apocalipse

Primeiramente, devemos pensar que não existe invenção na suposta visão tida por João de Patmos, quando é colocado a descrever o Apocalipse. Vamos lembrar que o livro do Apocalipse (“revelação” em grego antigo e escrito provavelmente em 80 ou 100 EC) tem espaço central na escatologia cristã e islâmica. É nele que estão presentes as imagens mais obscuras e exóticas do imaginário mítico ocidental e que levaram a uma enorme variedade de interpretações e causa de inúmeras igrejas. O futurismo criado levou a um sem número de correntes internas interpretacionistas. Sendo um dos últimos livros aceitos pelo cânone, até hoje algumas igrejas do Oriente o rejeitam. Mas por que será? Para começar, existem cerca 300 manuscritos gregos apocalípticos, inúmeros simbolismos são empregados por outras fontes antigas, todo um referencial do autor, que resgatou elementos de relatos no Velho Testamento, (Daniel, Zacarias, Isaías, Enoch e Ezequiel), além das fontes pagãs correntes e muito conhecidas na época.

A mulher que surge no Apocalipse, a mulher vestida (ou grávida) de Sol, está prestes a dar à luz um filho que é ameaçado por uma Besta, um dragão, e ao nascer, a mulher vai para o grande deserto levando a guerra aos céus, e neste ato, Besta e Mulher se conflitam. Há estudiosos que a identificam como um aspecto de Maria, outros dizem que seria a Igreja Católica. Independente das versões cristãs, o texto e a simbologia para nós, permanece clara, a mulher vestida de sol com a lua sob os pés, na cabeça uma coroa de doze estrelas são todos atributos astrológicos e iniciáticos das antigas tradições babilônicas, persas, sumérias, palestinas e egípcias. A mulher grávida (lunar) que é a forma criadora do Sol, as doze estrelas (signos) do Zodíaco, são elementos explícitos das deusas pagãs copiadas para a linguagem cristã, mas assumindo contornos novos de simbolismo. 

No livro, Babylon (Βαβυλὼν, a Grande, Mãe das Prostitutas e das Abominações da Terra, Babilônia), chamada no texto 17, também é a Mulher Escarlate. Ela é mencionada algumas vezes no livro e a parte quando o autor é “levado em espírito” para o deserto, a descreve sentando-se sobre uma Besta de mesma cor (escarlate), carregada de nomes blasfemos, com sete cabeças e dez chifres. Ela, vestida de púrpura, enfeitada com ouro e pedras preciosas, carrega uma taça de ouro, repleta de abominações, por causa da sua volúpia. Na sua testa está escrito: “Mistério, Babylon, a Grande, A Mãe das Prostitutas e Abominações da Terra”, totalmente embriagada do sangue dos santos, visão esta, que o autor comenta que permanece maravilhado… e admirado.

Até mesmo John Dee, em seu sistema mágico enoquiano, traz a palavra babalond, que também é traduzida como prostituta, onde descreve:

“Eu sou a filha sombreada pelo Círculo das Estrelas e coberta pelas nuvens da manhã. Meus pés são mais velozes do que os ventos e minhas mãos são mais doces do que o orvalho da manhã. Minhas vestes são desde o princípio, e minha morada está em mim mesma. O Leão não sabe por onde eu ando, nem a Besta do campo me entende. Eu santifico e não sou santificada. Feliz é aquele que me abraça, porque de noite, sou doce e de dia cheia de prazer. Eu sou uma prostituta para aqueles que me violam, e uma virgem com quem não me conhece. Pois eis que sou amada por muitos e sou uma amante para muitos. Abrirei as minhas vestes e estarei nua diante de ti, para que o teu amor seja mais inflamado para comigo.”

A Mãe das Prostitutas

A cristianização da palavra “prostituta” (do latim, “oferecida à frente”, “disponível à luxúria”), foi difundida em muitas línguas, mas em inglês e outras derivações europeias, como o whore, por exemplo, deriva de hora, ou horon, que simboliza “desejo”, “querida”, “amada”, etimologicamente falando. A divina companheira, as Horae gregas, atuavam como parteiras-sacerdotisas das deusas gregas e iniciavam homens e mulheres nos mistérios sexuais, pela dança e pelo toque.

A Mãe das Prostitutas, não é nenhuma companheira de qualquer homem, mas sim, a Mãe do Deus Solar na forma da poderosa Grande Mãe, seja representada no ATU XI, ou no ATU III, XXI, na Rainha de Paus, etc. É a Grande Prostituta e a serva de ninguém, e que nos leva a adorá-la sob suas múltiplas formas, seja de Babylon, Babalon, qualquer avatar feminino que possui referências de fertilidade e de guerra. Do impulso sexual feminino e da mulher liberada e livre. Nos credos dos ritos de fertilidade, rapidamente identificada com as deusas demiúrgicas, criadoras do cosmos e da terra, ctônica e celestial. É neste seu sentido mais restrito (sem entrar no metafísico) que, como arquétipo, Mestre Therion a identifica não mais nas tradições antigas, mas no próprio livro cristão. 

Talvez o fato de João indicar que o fim dos tempos (do patriarcado) estava evidente, sob a figura de uma mulher com poder, representasse finalmente, o cargo espiritual da Mulher Escarlate no Novo Aeon. Tal cargo, estabelecido no Livro da Lei, é o do estabelecimento da Mulher Escarlate na manifestação das energias do Novo Aeon. Aleister Crowley, em registro no The Vision and the Voice, sobre o livro de João comenta que o Apocalipse possui uma dúzia de alegorias “totalmente desconectadas, que foram reunidas e implacavelmente planejadas para torná-las conectadas, e que foram re-escritas e editadas para o interesse do cristianismo. Então, um homem pegou essa recensão, tornou-a cristã e imitou o estilo”.

A estrela de oito pontas é o símbolo de Inanna e Ishtar, juntamente com o disco solar de Shamash (irmão) e o Crescente Lunar (Sin). Particularmente, os leões pertencem às simbologias de Inanna e Ishtar, como se pode ver na entrada dos Portões da Babilônia. A estrela de Ishtar é associada diretamente com Vênus, que os antigos mesopotâmicos consideravam um símbolo de poder. Essa referência ao poder era dada pelos sumérios que viam a deusa como guerreira, mas ao mesmo tempo, da sexualidade, ao contrário de outros deuses, cujos papéis eram estáticos e limitados.

Crowley, na confecção do Tarot de Thoth, onde ela é representada pelo ATU XI, a Carta da Volúpia (Lust), e não apenas “Força”, como seria no tarot tradicional, dá seu sentido mais amplo do que simples “força”, mas “a alegria da força exercida”. Ela é o vigor e o êxtase expresso na Verdadeira Vontade. 

A atribuição zodiacal da Volúpia é Leão, o querubim do Fogo e governado pelo Sol, e um dos mais poderosos dos 12 signos zodiacais, mais a letra hebraica Teth, que significa “Serpente”. A união dos dois gera o “Leão-Serpente” (a figura do dragão e da besta). É o casamento perfeito da natureza em sua forma de embriaguez divina. No tarot tradicional, a mulher domina a fera colocando suavemente (decorosamente) a mão na boca do leão (mesmo que isso seja feito à altura de sua pélvis). Na carta de Thoth, ela se encontra totalmente nua, em embriaguez e cavalgando sobre a besta, inflamada pela volúpia. 

Esta carta representa, além da metodologia própria do baralho, a Vontade do Novo Aeon, onde a figura do feminino levanta alto o Santo Graal transbordante de sangue divino, numa atribuição do mênstruo lunar, absorvido pelo Graal. Eis o caminho de Teth, que leva à beira do Abismo, e à fonte de tudo, além da consciência do Sol em Tiphareth. É a Força Vital, a energia básica, o Ankh (Vida), em manifestação, a Kundalini, o Poder Ígneo da Serpente para o cruzamento do Portal de Daath. A própria Sekhmet, a Poderosa, na forma da Leoa Solar, com a Serpente que devora os santos, como força bruta, destrutiva e construtiva por onde deve fluir a Força Vital.

Sete são as cabeças da Besta, do Leão-Serpente, e logo atrás dela, os raios das Dez Sephiroth (dez chifres da besta enviadas em todas as direções para destruir o mundo), na paixão que cria tudo, pois “a paixão da destruição é também uma paixão criativa” (Mikhail Bakunin).

E não menos, o Tarot de Thoth encerra seus Arcanos Maiores com a Chave do Universo, o ATU XXI, na mesma Mulher que se movimenta na Dança da Vida e da Morte, sem véus, sem pudores, no espaço infinito rodeada agora pelos quatro querubins. A Mulher aqui é a Vontade Primeira que comanda a Energia Vital, o Grande Poder, que é senhora de nosso corpo, moldando nossos desejos, no treinamento para a canalização das vibrações dessa Força Vital. 

E “Ela cavalga a Besta; em sua mão esquerda ela segura as rédeas, representando a paixão que os une. Na direita, ela segura a Taça, o Santo Graal em chamas com amor e morte. Nesta Taça estão misturados os elementos do Sacramento do Aeon“. Crowley

E em A Visão e a Voz, do 12º Aethyr está escrito:

“Que ele olhe para a Taça cujo sangue está misturado nele, pois o vinho da Taça é o Sangue dos Santos. Louvor à Mulher Escarlate, Babalon, a Mãe das Abominações, que cavalga sobre a Besta, pois Ela derramou Seu sangue em todos os cantos da terra e eis! Ela o misturou na Taça de sua Prostituição.”

Babalon, na Árvore da Vida é identificada com Binah, a esfera que representa o Grande Mar e todas as Deusas-Mães como Aset (Ísis), Nut (Nuit), Net (Neith), Ishtar, Mariah, Inanna e Asherah. A Mãe Arquetípica, a Grande Yoni, o Ventre de Tudo que vive veio de seu sangue, o Grande Mar, o fluido divino que transborda no mundo e que corre em nossas veias.

A própria grafia de Babalon tem um profundo significado cabalístico, já que substituindo a letra ‘y’ (Babylon) pelo ‘a’ (Babalon), surge um ‘AL’ no centro (Bab-AL-On), onde Bab é a palavra árabe para portal, AL a chave de Liber Legis e também é um nome sagrado (Al, El); e On, a cidade egípcia conhecida como a Cidade das Pirâmides (a gematria de Babalon que soma 156, é o mesmo número para a Cidade das Pirâmides).

Nossa Era é rompida pela encarnação desta força, da sua natureza cíclica, que traz o verdadeiro Amor, a Compreensão e mesmo a Liberdade dionisíaca, um propósito ou não, na negação absoluta da opressão e repressão sexual, na salvação frente a uma era monolítica e misógina. Nossa Era é da reaproximação e do resgate (não simbólico) das antigas heranças que foram retorcidas pelo presente movimento. 

A Prostituta é mesmo a figura diabólica que todos devem temer. Que essa força e imagem seja uma verdadeira ameaça, que o foco do feminino não seja apenas no aspecto da maternidade e fertilidade, mas também na sua forma guerreira e vitoriosa. Que o aspecto da Mãe confunda os significados complexos nos mais variados papéis de natureza, diversidade e gênero. O fundamentalismo mitológico das fábulas reproduzidas deve ser narrativa de um passado. 

Se, como disse Simone de Beauvoir, que Inanna e Ishtar, foram marginalizadas em favor do masculino, isso porque elas começaram a ser vistas como grande ameaça e representantes do arquétipo socialmente inaceitável, não domesticada e livre, então devemos apontar a centralidade na sua obscuridade e na sua luz.

Por Frater Heru Maati