Thelema e o paradoxo egiptológico

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É inegável que o Egito vem sendo uma poderosa influência na base conceitual para os grandes sistemas ocidentais de magia e esoterismo, desde o início do século XIX. Com o passar do tempo, e com a criação da egiptologia clássica, na segunda metade do século XIX e início do século XX, a inserção dos conhecimentos acadêmicos se deu de forma contundente para o ocultismo. Este legado deixado e redescoberto, graças à possibilidade de tradução da linguagem hieroglífica, mostrou que ocultistas e estudiosos pudessem ampliar e definir as linhas de seus próprios sistemas. Este texto visa determinar o valor desse conhecimento antigo que foi redescoberto e como ele impactou nos sistemas mágicos ocidentais, principalmente o de Thelema.

thelema e paradoxo egiptológico

Esoterismo e Egiptologia: um romance

O processo dinâmico que se desenvolveu e que atravessou o Mediterrâneo até a Grã-Bretanha, abriu outras fronteiras para um novo “Velho Mundo”: os sistemas mágicos ocidentais. Esoterismo europeu e egiptologia começaram a ter um complexo romance. No entanto, algo que merece ser citado, que é algo desconcertante, pertencente à tradição intelectual do Ocidente é como que o esoterismo sempre tenta moldar as disciplinas acadêmicas à sua realidade, e desde muito antes do século XIX. Temos aí, o movimento rosacrucianista, teosofista, Golden Dawn, maçonaria e… um pouco de Thelema, também. Vejamos como foi esse processo.

No período compreendido entre 1875 até 1940, que até coincide com o falecimento de Eliphas Levi e com o nascimento de Mestre Therion, houve a maior efervescência dos círculos esotéricos e das principais tradições ocidentais, entre a França e Inglaterra. Muitas delas, senão todas, com seus sistemas centrados no Antigo Egito. Este período não só tornou amplamente difundido os conhecimentos decifrados para a área da egiptologia como também para a área esotérica. 

Examinando as interações entre esoterismo e egiptologia, podemos entender melhor como as tradições se concretizam em resposta aos novos influxos de informação, e além disso, como gerou efeitos de se converterem em autoridades nos corpos de conhecimentos locais. Mas, será que o processo inverso também ocorreu? Isto é, do meio esotérico (ou místico) para o egiptológico? Veremos.

Normalmente se negligencia a importância do esoterismo dentro do estudo egiptológico, no sentido de dar valor à compreensão simbólica de certos elementos presentes na arqueologia. Vamos lembrar que muitos dos honoráveis doutores arqueólogos e curadores de museus pertenciam ou às organizações sociais, maçonaria ou mesmo sociedades fraternas místicas, o que era comum na época. Hoje, por exemplo, o egiptólogo Erik Hornung discute como egiptólogos “acadêmicos” e “esotéricos”, dividem palcos para certos conhecimentos e teorias que envolvem o Antigo Egito. O kemetismo, movimento moderno de resgate das antigas tradições egípcias, costuma apostar para as duas correntes, especialmente dos egiptólogos esotéricos.

Desta forma, inversamente do que muitos pensam, o esoterismo acabou evoluindo junto com a egiptologia, sendo portanto, um campo de trabalho e estudo que não deve ser negligenciado pelos esotéricos modernos. Porém, com o boom esotérico britânico da egiptologia no final do século XIX, e como as emergentes sociedades como a Rosacruz, Golden Dawn e a O.T.O. mantiveram a postura de defesa sobre os elementos egípcios, é necessário voltar uma atenção especial.

A “evolução” da proposta teosófica de transformar o campo de estudo das ciências históricas, como a arqueologia, a egiptologia e indologia em seus próprios ramos, acabou por causar uma suposta emancipação do saber científico em razão de apelos ocultistas. A “atualização” e revisão da História estava sendo feita por sociedades sem o menor critério! O esoterismo europeu do século XIX, num modo positivista, se enxergava como num movimento ascendente evolutivo do ápice da pirâmide na escala de consciência humana, onde as noções de ciência e religião se misturavam.

Advento da Golden Dawn

Em seguida, veio a Ordem Hermética da Golden Dawn (1887) de MacGregor Mathers, William Westcott e William Woodman. Também, neste momento, a Antiga Ordem Mística Rosae Crucis (AMORC) tentava fundir totalmente a egiptologia. Tal como a Golden Dawn, a AMORC foi bastante influenciada pelo simbolismo egípcio, na ênfase dos rituais, nos hinos, e demais elementos como crenças pertencentes ao conhecimento do Antigo Egito. Arthur Waite, que foi membro da Golden Dawn até 1900, comenta que toda a base ideológica da ordem estava centrada em torno dos manuscritos cifrados, que supostamente incluíam teorias e ideias de certos conhecimentos egípcios antigos, e que serviram de estrutura para os rituais da ordem. Waite ainda afirma que os manuscritos se referiam ao antigo ritual do “Livro dos Mortos Egípcios”.

No entanto, analisando historicamente o chamado erroneamente “Livro dos Mortos”, que foi compilado quase no mesmo ano que a formação da Golden Dawn, pelo egiptólogo britânico e curador do Museu do Cairo E.A. Wallis Budge, vemos que as primeiras traduções parciais do livro apontam para uma década antes. O “Livro Egípcio dos Mortos”, com a primeira saída de 1895, na verdade, é um mero título dado a uma série de papiros teológicos, mágicos e históricos à qual Budge reuniu posteriormente.

Tudo agrupado sob um título apenas, o objetivo de Budge era de compilar toda a série que ele tinha em mãos, incluindo o Papiro de Ani, cuja influência foi decisiva em Thelema depois. Todos esses processos das descobertas, traduções e publicações naquele período revelam os elementos importantes a serem considerados sobre as relações entre o esoterismo e a egiptologia. Mathers que visitava diariamente o Museu Britânico, lugar onde até hoje reúne o maior acervo de egiptologia fora do Egito, estava a par e estimulado com as recentes descobertas dos papiros e de suas traduções. O mesmo se dá com Waite e Florence Farr que também chegou a escrever temas sobre magia egípcia antiga. Muitos dos rituais da ordem seguem os elementos dos capítulos do “Livro dos Mortos”, originados diretamente das fontes egiptológicas. O “Papiro de Ani” chegou ao Museu Britânico em 1888, coincidentemente quando a Golden Dawn foi oficialmente fundada.

Thelema, o Novo Aeon e a Nova Egiptologia

Quando Crowley esteve na Golden Dawn em 1898, absorveu diretamente de Mathers e de seus rituais todo o conhecimento, ampliando e intensificando a partir de 1900, o seu próprio sistema com fundamentos espirituais no Egito. É sabido, através das fontes biográficas de Mestre Therion, que ele teria feito amplo uso da egiptologia e antigas fontes de conhecimento em papiros para reordenar o novo sistema dentro da O.T.O., incluindo Thelema e o conceito do Novo Aeon.

É óbvio afirmar que Mestre Therion ascendeu a Filosofia de Thelema e com isso, impactou de forma revolucionária todo o Ocidente, de forma intelectual, filosófica, popular e cientificamente. Em 1904, no Cairo, com Rose Kelly, a presença de Hórus (Heru) transforma-o em sua experiência máxima, na revelação do Novo Aeon de Horus, porém, trazendo luz ao conhecimento da tradição egípcia para o Ocidente, de uma forma como nunca antes.

Crowley, em suas visitas frequentes ao Museu do Cairo, para confirmar as revelações de Kelly, seguiu à risca as abordagens egiptológicas da tradução da Estela de Ankh-af-an-Khonsu. Todo o simbolismo egípcio contido em Thelema, através da recepção de Horus no Cairo, as divindades, a estrutura linguística dos livros e rituais, os conceitos dos corpos, e outros, conferem uma herança esotérica com base na egiptologia da época. Da mesma forma como a Golden Dawn trouxe os elementos da egiptologia para legitimar seus sistemas, Mestre Therion, avançou no mesmo processo sem descartar a possibilidade egiptológica, junto às enormes coleções no Museu do Cairo e de Londres. É bem conhecido o movimento que Crowley fez ao estender a mão para os acadêmicos como Gunn, Brusch e Gardiner, onde tiveram papel fundamental em muitas partes do Liber Al vel Legis.

Assim, quando falamos em esoterismo e egiptologia, Crowley e Thelema não estão longe desses processos. O “Equinox”, “Equinócio dos Deuses”, em uma de suas edições foi altamente instrutivo na declaração de certos conhecimentos egiptológicos que foram feitos antecipadamente à experiência “científica de campo”, como conhecimentos em magia, revelando que egiptólogos esotéricos também chegaram a influenciar a academia.

Mas é importante observar que, das fontes egiptológicas do período do final do século XIX e início do século XX, os acadêmicos britânicos reivindicavam posições com valores e conceitos totalmente cristãos, como Flinders Petrie e Budge, e temas complexos como “magia”, “deuses” e “religião” eram traduzidos e interpretados sob a ótica ocidental. Tanto a arqueologia, a história ou áreas específicas como a egiptologia, eram utilizadas para confirmar seus valores ocidentais frente a “povos pagãos do passado”. Outros, mais “científicos”, estavam apenas interessados na egiptologia como mais uma disciplina, sistematização “neutra”.

Tanto Petrie quanto Budge fazem comentários e afirmações em “A Religião do Antigo Egito” e no “Livro dos Mortos” citando aquelas práticas e filosofias como amontoado de pântanos confusos, idólatras, supersticiosos, aborígenes, etc, e que tais papiros, são inúteis na compreensão moderna já que possuem conteúdo mitológico fantasioso. E como bem sabemos, a aversão anticristã de Crowley era abertamente conhecida, e neste sentido, desprezava certos autores contemporâneos, e por isso, buscava se conectar àqueles que estivessem à parte da historicização cristã britânica, absorvendo o conteúdo de uma forma mais essencial.

Por exemplo, Heru-ra-ha, Ra-Hoor-Khuit, Nuit, Hoor-pa-Kraat e outros, são exemplos de divindades inseridas dentro de Thelema, que representam relações diretas à tradição egípcia antiga. Ra-Hoor-Khuit, que significa “Ra, Horus no Horizonte” é a forma de Ra-Heru-Khuty, presente no Capítulo III do “Livro da Lei”, a divindade da guerra e da vingança. Junto com seu duplo aspecto, temos a “Criança Coroada e Conquistadora”, e o aspecto passivo e intelectual, Hoor-pa-kraat, que Heru-pa-khered, onde Aiwass, ministro de Hoor-paa-kraat que dita o Capítulo I do “Livro da Lei” (“I.7: Behold! it is revealed by Aiwass the minister of Hoor-paar-kraat”).

Em textos da Golden Dawn, Hoor-pa-kraat se encontra no centro do grande Salão de Maat, rodeado de outras divindades, os Neteru. A própria palavra da Corrente 93 teria sido pronunciada em Tebas (Waset), enviada pelo Nilo até ser recebida pelos sacerdotes de Anu (Heliópolis, a Cidade das Pirâmides, ou ON). E nos Mistérios de Hrumachis, ou Hor-em-akhet, “Horus no Horizonte”, que é a porta de entrada e saída do Sol (Ra, Hadith) para o Duat ou Amenti (o mundo subterrâneo) por onde ele viaja todas as noites e nasce no horizonte e se equivale nos equinócios. Hrumachis é chamado de Hu, e nos textos egípcios, Ra se divide em dois: Hu (Vontade) e Sia (Sabedoria).

Assim, Thelema, através de todo um sistema próprio que possui bases estruturais, do ponto de vista filosófico e místico, também foi muito importante para a contínua experiência do saber dentro dos campos do conhecimento, quer queiram os acadêmicos, ou não.

Por Frater Heru Maati