Ocultismo: doença infantil do esoterismo

Tempo de leitura estimado: 6 mins.

Ficou muito em voga, nas últimas décadas, criarmos uma cortina divisória ao tentarmos ressignificar “nós ocidentais” e “eles orientais” (mesmo que esta denominação implique em incluir africanos). Este texto não visa e está longe de querer discutir os conceitos sobre o que é “ser ocidental” e “ser oriental”. No entanto, é muito provável que, na tentativa destes últimos tempos, queiramos definitivamente, tentar arrumar a desordem causada pelo pensamento eurocêntrico, etnocêntrico, do chamado “processo civilizatório”, entre outros. Mas, por outro lado, é impossível, não problematizá-lo, no âmbito da perspectiva filosófica e esotérica.

Para nós, chamados a rigor de “ocidentais modernos”, acabamos adquirindo um tipo de prisma. Este prisma se encontra de forma mais fronteiriça nos aspectos essenciais de toda a metafísica antiga. Para isso, é importante compormos uma percepção individual sobre as antigas tradições, e nos permitirmos à essa tentativa de compreensão correta dos mistérios, de forma que possamos “esvaziar” o nosso conteúdo e repertório, que sempre foi valorativo, e cada vez mais, imerso em moralizações. 

“Esse osso ainda é meu”

Porém, para que isto ocorra, é antes, necessário, dar lugar ao novo. O que é o novo? É tentar consentir em perder parte da segurança e dos pedestais sagrados dos nossos valores. É absolutamente errado pensar que quem segue alguma tradição antiga, seja filosófica ou mística, está imune às condições culturais precárias do nosso presente. É indiscutivelmente equivocado pensar que estar inserido em um processo iniciático, nos despimos de nossas máscaras e vestes comportamentais (que aquela suposta tradição faz jus ao propor).

Números em escalas dos religiões abraâmicas no mundo

Ou pior, imaginar que pertencer a alguma tradição esotérica é tirar seu lado demasiado humano de “senso comum” e deixar o crucifixo de lado. Ledo engano, já que romper com o Velho Aeon não significa deixar de lado apenas a crença, mas sim, revolucionar, ou melhor ainda, desconstruir os velhos valores de um arraigado sistema de crenças, costumes e valores. Isso implica todo um sistema a ser revisto, que não apenas inclui o aspecto religioso, mas cultural, político e social.

É destruir. Requer o movimento rumo a uma reeducação moral, ética, filosófica. Requer a retificação sobre o que entendemos por coletividade, conceito de natureza, relações entre o passado, presente e futuro, conceitos de vida e morte, etc. Se, de fato, tradições antigas, como o tantrismo pré-védico, taoísmo arcaico (pré-religioso) e kemético (egípcio), para citar algumas, revelam-se como possíveis fontes e origens da nossa atual “tradição ocidental”, em algum ponto no meio deste trajeto, algo do entendimento desses mistérios, permaneceu verdadeiramente desalinhado. 

Mas o que ocorre? É reviver na essência, e não na superficialidade, característica da modernidade, e sendo uma constante atual, o que antes eram “princípios”, tornam-se hoje, para nós, superficiais e apenas estéticos. Devemos limpar o pó do tempo, torná-los novamente, substanciais e fundamentais, sem ser anacrônicos. 

A nossa modernidade, com a formatação ocorrida pelos princípios do patriarcado, gerou um estado de individualização e competição, em todos os aspectos, comuns à sua natureza. Os fragmentos de sua compulsão ao domínio sobre tudo e sobre todos, utilizada para aquilo que é sempre externo, superficial e quantitativo, criaram um mundo reducionista ao extremo, rumo à autodestruição. Um movimento impulsivo ao caos, no sentido negativo. É uma percepção linear e não cíclica. Trata-se de um movimento autodestrutivo, individualista e reducionista. 

No entanto, nossa tentativa de fazer e dar lugar ao “novo velho”, no sentido dialético (“não nos banhamos duas vezes no mesmo rio”, Heráclito de Éfeso), seja em renascer para algo novo, a nova criança, como todo eclipse implica em saber intrinsecamente que o Sol renasce e tudo retorna, mesmo que não seja como era antes. Mas estamos lidando, ou não, neste processo, com a incapacidade moderna de perceber o mundo e o próprio ser humano como algo cíclico, tornando-o assim, refém de suas próprias fantasias. Ocorre então, a inumação das tradições.

A busca pela memória do passado (mas desapegada) gera um tipo de subjetividade na linha do tempo que só a experiência mística pode trazer. É como se compreendermos que, na verdade, não existe tempo nem espaço, apenas algo contínuo e ininterrupto, como toda a essência o é, apesar das múltiplas manifestações da vida, o ritmo em si, o movimento eterno, seja da própria mudança ou da expansão da vida, que permanece intacto. É diferente, portanto, resgatar o passado sem ser ele mesmo trazido como era, mas em substância.

Infelizmente, a nossa tendência atual é justamente o oposto disso: a fragmentação da realidade em realidades e micro realidades, a necessidade patológica em relação ao que é excêntrico e inédito, com aversão ao que é tradicional, contínuo, perdurável. Isto pode ser facilmente demonstrável às chamadas “ondas” ou modas que, em praticamente todas áreas técnicas, tem se reproduzido e, como era de se esperar, igualmente nas tradições ocultistas modernas. 

O boom esotérico surgido na metade do século XIX é, talvez, a onda mais recente, com o surgimento empipocado de inúmeras ordens e sociedades místicas com teor iniciático de “tradições orientais”. A segunda onda, seguindo nesta linha de modismos de época, foi dada com o advento do neopaganismo que varreu a Europa e os Estados Unidos, até o presente momento.

Nos anos 80 e 90, com o declínio das chamadas “tradições ortodoxas” e “fechadas”, em razão da emergente atomização de células de micro tradições criadas de forma independente, ocultistas, com visões pós-modernas sobre processos como iniciação, tradição, sociedade e métodos, houve um movimento de individualização e customização das tradições. Aqui não há uma defesa da ortodoxia. A questão é que muitas delas chegaram ao Ocidente, já fragmentadas e distorcidas. Esta descaracterização ocorreu, por exemplo, com o taoísmo e a Medicina Tradicional Chinesa, com o Tantra e o Yoga, com o xamanismo, com as tradições de matriz africana, com a Qabbalah, etc. 

Infelizmente, este movimento para o “novo”, não se trata da revelação de um despertar ou algo semelhante. No mais, se trata de uma continuidade do modelo fragmentado que se manifesta em razão de um sistema de valores e crenças que, neste caso, continua sendo o mesmo. Outro problema que surge, no entendimento do que significa uma tradição de mistérios, é a desqualificação daquilo que se apresenta como simbólico. A modernidade ocidental tende a ver o simbólico pela sua aparência meramente estética e funcional, deixando ou optando, de lado, os elementos essenciais de sua natureza.

A forma como enxergamos os mitos e as lendas são tão superficiais quanto a sua forma de descrevê-los. Isto demonstra que a nossa capacidade, ou incapacidade, de pensar de forma analógica, perdeu-se no tempo. O racionalismo, impulsionado pelo cientificismo lógico e matemático, que de certa forma foi importante em um dado momento histórico, ao confrontar o dogma autoritário de uma igreja dominante e onipresente, fez-se ela mesma, a ciência, uma doutrina cega e brutal. A nossa mentalidade foi dissociada do valor simbólico e da inter-relação com o sagrado.

É normal, portanto, que durante toda passagem de uma era para outra, tal transição tende a ser, em todas as ocasiões, turbulenta. Isso significa que qualquer transição de um estado para outro, em todos os sentidos, seja na matéria física ou no entendimento histórico, traz consigo elementos revolucionários do novo em contraposição dos elementos reacionários e conservadores do velho, que por uma razão ou outra de apego, quer se prender. É neste sentido, que quando o status quo do Velho Aeon é confrontado em suas bases, muitos dos aspectos revolucionários de uma nova era surgem, por vezes, descontrolados e desmedidos, causando caos e desequilíbrio. 

O Ajustamento

Esta desordem, contra os elementos tradicionais, gera dúvidas em relação à própria natureza do novo que surge, provocando, mesmo nos seus defensores, repúdio pelos comportamentos anti tradicionais exagerados. No entanto, é inteiramente presumível e natural este tipo de comportamento. Se colocarmos os fenômenos históricos e sociais do passado e do presente, estes exemplos, além de serem mais inteligíveis, nos brindam com vastas experiências: transições de regimes políticos como a monarquia e república, escravidão e abolicionismo, trabalho escravo e direitos trabalhistas, e isso sem falar nas chamadas “eras” ou “aeons” cíclicos, do matriarcado para o patriarcado e vice-versa, o surgimento dos movimentos ambientalistas e da “nova era”, a emergência do feminismo e do sagrado feminino, são uns dos exemplos mais atuais e presentes. 

Todos estes, sem exceção, usufruem do dinamismo natural da sua necessidade de transpor o antigo e o ultrapassado, mesmo que estes irrompam em exageros, são importantes ajustes. Ajuste é uma palavra correta, que não significa “justiça” nem “ordem”, mas “Ajustamento” (ATU VIII). O velho, ao ignorar a força do novo, termina por perverter a sua própria essência. 

O “novo” significa, a transcendência de si mesmo, a jornada evolutiva da própria humanidade, do ser humano e do universo. Cada uma das eras passadas, significou um estágio, um período específico na ordem das coisas, mas nem por isso, a essência, os valores primordiais e universais foram alterados. Por outro lado, quando o Ocidente renega estes valores, tanto a sua essência quanto a sua manifestação, tornam-se estéreis, e com isso, o simbólico e a essência vem a desmoronar, fragmentar-se e sumir.

Na verdade, é o momento atual em que vivemos, no presente do sistema patriarcal, culminando decisivamente quando as religiões abraâmicas sepultaram de vez com as antigas tradições herdadas.

Por Frater Heru Maati